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quarta-feira, 16 de março de 2011

este texto não é triste

[gary barlow] temos um trato e eu acabo de quebrá-lo.

blogs como este existem, acredito, para abrigar desabafos sobre a vida. textos movidos a melancolia e escritos não por escolha, mas por necessidade de revisitar sentimentos difíceis. na vida offline, aprendemos cedo a ter discrição nos momentos de tristeza e a gritar nossas pequenas alegrias para todos, como se isso nos transformasse em pessoas melhores - quase normais. na vida virtual, vale o contrário: altruísmo na frustração, egoísmo na alegria. ninguém quer ler textos felizes, essas bolhas de ingenuidade que não ensinam nada. a tela existe para textos bonitos e tristes, com espaço apenas para a pequena dose de esperança necessária para encarar a vida até o próximo post. foi por isso que comecei a escrever aqui. é por isso que eu escrevo.

este texto não será um deles. depois de quase duas semanas de silêncio, sou forçado a burlar as regras e escrever um texto feliz.

tenho de escrever um texto feliz porque, neste último mês, vivi alguns dos momentos mais agradáveis da minha vida. resisti a falar disso. tentei mudar de assunto ou disfarçar minha alegria citando diálogos aleatórios e sem contexto. ficou difícil. não há como continuar a escrever textos tristes quando, diante do teclado, lembranças do último fim de semana (e do anterior, e do outro) invadem minha cabeça e minha vontade é repetir, a cada linha, a frase que joel disse a clementine. a frase que eu repetia mentalmente enquanto assistia a seriados e comia brigadeiro no sofá, abraçado à garota. ou quando acordava ao lado dela depois de combinarmos, sem sucesso, que naquela noite eu dormiria em minha casa. ou no dia em que prometemos parar de tomar coca-cola e quebramos a promessa depois de meia hora, só porque as bocas mereciam um gosto doce e quem está apaixonado tem a permissão do universo para agir como criança, ainda que por alguns instantes.

"i've never felt that before. i'm just exactly where i want to be."

confesso que me considerava incapaz de sentir algo assim. no ano passado, depois do fim de um relacionamento problemático, uma amiga me aconselhou. disse que eu deveria aprender a ser solteiro, e ser solteiro era como ser malabarista. o segredo era imitar aqueles garotos chineses do circo, que conseguem equilibrar vários pratos sem piscar, tremer ou deixar que um deles caia no chão. os garotos faziam malabarismo com pratos. eu deveria fazer malabarismo com pessoas.

quem conhece minha história sabe o quanto me custa lidar com isso. depois de traumas antigos, havia aderido à regra (muito razoável) de me interessar por uma garota de cada vez. ainda assim decidi tentar de novo, e devo dizer que aprendi. redescobri o prazer momentâneo de sair à noite sozinho e voltar acompanhado. reatei amizades antigas e mal-intencionadas. tratei de fazer amizades novas. vivi amores de verão. inventei paixões platônicas mirabolantes, por amigas e colegas de trabalho, para não perder o coração por falta de uso. administrei paixões platônicas alheias. machuquei pessoas - algumas, pouco; outras, um pouco mais. me machuquei um pouco mais que um pouco, mas menos do que eu esperava. bebi, liguei para amigos de madrugada, ouvi canções de amor e escrevi textos tristes. tudo sem perder o equilíbrio, como os garotos do circo.

mas a vida reserva surpresas para todos - até para quem tenta imitar a disciplina impassível dos malabaristas chineses. o inesperado pode dar as caras a qualquer hora. na fila de um bar, em uma cidade desconhecida, em uma janela de bate-papo ou em um blog cheio de textos tristes. você pensa que está preparado para tudo e o inesperado aparece, de saia preta e blusa azul turquesa, e antes de conseguir abrir a boca você se dá conta de que não aprendeu nada. ninguém aprende nada.

pensei que podia amar e desamar como os garotos chineses do circo. equilibrar paixões como pratos de porcelana. bastou um sorriso, uma caminhada de alguns quarteirões e algumas centenas de milhares de palavras para que eu abandonasse a tentativa e nem notasse o chão cheio de cacos. só existe vida onde há desequilíbrio. é por isso que este texto não é triste.

não vou me gabar da minha alegria. não sou equilibrista. não há sentido em criar a ilusão de controle num mundo feito de ajustes e precariedade. no futuro, posso ler este texto com saudade, raiva, melancolia - ou com a satisfação de quem comprova que estava certo. não importa. agora, para mim, este texto não é triste. e não vou fingir que isso seja pouco.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

o dia em que descobri que eu não era bom

[gary barlow] quando eu decidi participar deste blog, o maior motivo foi minha vontade de dividir esta história. falei dela há alguns dias e tenho ensaiado o texto desde então. vai ficar enorme e um pouco melodramático, mas é assim que ele deve ser. a quem tiver disposição de ler, faço duas promessas. tudo o que está escrito abaixo é verdade, e nada te fará sentir empatia ou compaixão.

já escrevi aqui sobre minha segunda traição, com a garota da faculdade. foi o início de um relacionamento doloroso e inesquecível. mas não contei que essa era apenas parte de uma história maior, que começou de um jeito parecido e mudou para sempre minha maneira de ver o mundo e os relacionamentos. para sempre e para a pior.

ela começa com um típico namoro colegial. depois de alguns beijos sem muito significado, acabei me tornando metade de um desses casais ingênuos e felizes. daqueles que percebem o ceticismo de todos ao redor, mas que nem por isso deixam de fazer planos para os 40 ou 50 anos seguintes, ou de trocar juramentos maravilhosos e quase impossíveis de cumprir.

"eu sempre, sempre vou te dizer a verdade."

falhei em todos os outros. mas esse, sem dúvida, foi o pior deles.

o dia em que descobri que eu não era bom foi uma segunda-feira, no começo de 2003. eu tinha entrado há pouco tempo na faculdade, que costuma ser a sentença de morte dos namoros do colégio. eu e ela estávamos brigando constantemente por algum desses motivos ridículos que levam adolescentes de 18 anos a se desentender, se é que eles precisam de motivos.

em meio a essas brigas, conheci a garota do interior. ela não fazia meu tipo em absolutamente nenhum sentido, o que não impediu que começássemos a conversar na sala de aula e a levar nossas conversas para o intervalo. até essa segunda-feira, em que estávamos sentados em uma das escadas do campus e ela perguntou se eu tinha namorada.

respondi que não e ela me roubou um beijo.

eu poderia até dizer que aquele beijo foi culpa dela, apesar de eu ter mentido que era solteiro. mas os beijos seguintes foram culpa minha. foi culpa minha quando liguei para minha namorada e disse que ia ficar na faculdade até mais tarde para estudar. quando levei a garota para o meu carro. quando me despedi dela falando que nos veríamos no dia seguinte.

à noite, quando encontrei minha namorada, achei que ela perceberia que havia algo de errado. ela não desconfiou de nada. do cumprimento à despedida, aquele foi mais um encontro normal daquele casalzinho apaixonado do colégio, que brigava por bobagens e depois voltava às boas. exceto pelo fato de que eu não era uma pessoa boa.

ao menos nos círculos que eu frequento, todos têm a convicção de que são pessoas boas, assim como seus pais, irmãos e amigos. um elogio comum a alguém de fora desse pequeno grupo é dizer que se trata de "uma pessoa boa". uma de nós. eu também pensava assim até aquele dia. foi aí que descobri que eu, um menino que beijava os pais antes de dormir, tirava notas altas e tinha um namoro supostamente perfeito, poderia ser um tremendo filho da puta.

e o que mais me surpreende, olhando para o passado, não é a minha falta de coragem para abrir o jogo com a minha namorada, ou a completa irracionalidade da minha conduta - afinal, eu havia traído na primeira oportunidade que tivera, com uma garota por quem eu tinha interesses no mínimo superficiais. o que mais me surpreende é que eu não tinha a menor intenção de parar.

passei algumas semanas com a garota do interior, até que ela começou a se apaixonar e eu tive de dizer que, sim, eu era comprometido. ela ficou justificadamente transtornada. chegou a pegar o número de telefone da minha namorada no meu celular e ligar para ela, mas não teve coragem de dizer nada.

inventei uma história. disse que a garota era louca e tinha pego meu celular emprestado. minha namorada acreditou. cortei o contato com a garota do interior e só voltei a vê-la há alguns meses. ela me confessou que ainda gostava de mim. eu disse que não merecia esse sentimento e que ela deveria procurar alguém melhor. ela insistiu; disse que eu estava me diminuindo. eu disse que sabia que eu estava certo. não a vi mais depois disso.

***

depois desse susto, eu e minha namorada voltamos à instabilidade tradicional. continuei a omitir tudo o que havia acontecido com a garota do interior. vivemos um ano de quase felicidade, até eu conhecer aquela outra garota.

na primeira vez em que beijei a garota da faculdade, eu e minha namorada estávamos brigados. de traidor, eu passei a ser amante. durante a semana, eu e ela levávamos uma vida de casal, a ponto de frequentarmos as casas um do outro e sairmos para almoçar com amigos. os fins de semana ela passava com o namorado, em outra cidade. ela dizia que iria terminar com ele, mas sempre voltava na segunda-feira com uma desculpa para não tê-lo feito. eu merecia.

já disse que a história terminou depois de três meses, com duas traições, quatro corações destruídos, um trancamento definitivo e uma prescrição de fluoxetina. mas não disse como terminou.

quando triângulo amoroso havia completado dois meses, minha namorada voltar a me procurar. marcamos um encontro. ela me abraçou e chorou, dizendo que sentia minha falta. eu já não sentia quase nada por ela, mas não tive coragem de dizer que não queria mais e estava com outra garota. me sentia em dívida com ela por tudo o que havia feito. nós reatamos sem que eu dissesse nada sobre a garota do interior, ou sobre a garota da faculdade. não tive coragem de cumprir minha promessa.

a garota da faculdade ficou abalada com a notícia. nunca mais foi a mesma comigo e parou de prometer que terminaria o namoro. ainda assim, mantivemos nosso relacionamento por mais um mês, sem que minha namorada ou o namorado dela soubessem de nada. continuamos nessa felicidade precária até as férias de julho, quando ela foi passar um mês na cidade dela e eu fiquei em são paulo com minha namorada. nenhum dos dois se sentiu à vontade para ligar. quando voltamos a nos ver, o interesse dela por mim havia morrido. ela começou a fazer outro curso e não nos vimos mais na faculdade.

eu, que já detestava as aulas, agora tinha um motivo a mais para não querer olhar para o prédio, as pessoas e as paredes. tudo me lembrava dela. passei a tirar notas baixas e faltar às aulas. tranquei minha matrícula na faculdade. conheci meu primeiro psiquiatra. o segundo. o terceiro. tomei os remédios mais populares para depressão: esses que os médicos se acostumaram a receitar sem perguntar qualquer coisa. não fizeram efeito porque meu problema era moral. mas eu não admitiria isso nunca - nem mesmo em uma consulta psiquiátrica.

minha namorada me via desabar, mas não podia saber o motivo. tive de inventar desculpas. disse que era por problemas familiares, por insatisfação com o curso, por razões químicas (como se eu soubesse algo do assunto). cheguei a dizer que a culpa era dela. continuamos nesse pesadelo por mais três anos, até que aquele grande amor adolescente se transformasse em nada. terminamos o namoro quando ela decidiu não atender mais aos meus telefonemas depois de uma de nossas brigas cotidianas.

pouco depois disso, encontrei a garota da faculdade por acaso num restaurante. estava sentado com dois amigos quando ela passou pela minha mesa, em direção à porta. num impulso, levantei e fui atrás dela. ela continuou andando, sem tirar os fones de ouvido. consegui alcançá-la e andei ao lado dela por três quarteirões. disse que precisávamos conversar e que eu ainda pensava nela todos os dias (era verdade). enquanto dizia isso, segurei a mão dela. ela disse que precisava ir embora e não queria ouvir nada. continuei segurando sua mão; ela se afastou e atravessou a rua. não fui atrás. voltei ao restaurante algumas vezes, mas nunca nos encontramos de novo.

***

a história merecia um epílogo amargo.

dois anos depois do fim do namoro, eu e minha ex-namorada nos encontramos na internet e ela me mandou uma mensagem. voltamos a conversar e reencontramos a sintonia dos primeiros anos. depois de duas semanas de conversas virtuais, ela me convidou para tomarmos um café. eu vivia os últimos meses de um relacionamento duro e passional, mas mesmo assim aceitei o convite.

nos encontramos em uma padaria de que gostávamos e conversamos por duas horas. ela me falou da vida, dos trabalhos, das viagens. e deu de presente uma medalha como esta, que ela tinha comprado no vaticano. disse que sabia que eu estava comprometido, mas que ainda gostava de mim e queria tentar de novo.

eu não estava disposto a tentar. em dois anos se aprende alguma coisa, e eu sabia que não conseguiria guardar todas as mentiras do passado e manter a nossa sanidade, ou a mais remota chance de sermos felizes. mas ao mesmo tempo não achava justo dispensá-la e deixar que ela pensasse que foi rejeitada por uma pessoa boa, digna do amor que ela sentia.

sem pensar muito, decidi cumprir a promessa feita sete anos antes. contei toda a verdade.

há um limite para as descrições, e este é o meu limite. mesmo se eu abusasse de metáforas e adjetivos, não saberia descrever a expressão de alguém que acaba de descobrir que foi enganado durante cinco anos. só posso dizer que eu vi esse rosto. é uma cena que me assombra de tempos em tempos, embora eu tenha aprendido a pensar no passado o mínimo possível.

segurei a mão dela assim que ela começou a chorar e contei a história até o final. pedi uma água. ela tomou e quis ir embora. caminhamos juntos, sem olhar um para o outro. em frente ao carro dela, perguntei se ela queria a medalha de volta. ela disse que tinha comprado pensando em mim e queria que ela ficasse comigo. está na minha carteira até hoje. é a prova de que minha história é verdadeira. de que ser uma pessoa boa não é uma condição nata, mas uma decisão tomada ao longo da vida.

quando nos olhamos pela última vez, ela ainda chorava muito. eu a abracei e disse a única palavra que cabia naquele momento. "desculpa." ela me abraçou mais forte, não respondeu e se despediu. acompanhei o carro dela com os olhos até o fim da rua, como fazia nos primeiros anos de namoro. eu não a veria mais depois disso.

ainda naquela tarde, por e-mail, ela me diria tudo o que eu merecia ouvir e ela não teve forças para dizer em nosso encontro. eu respondi com um novo pedido de desculpas. ela encerrou a conversa e pediu que eu nunca mais a procurasse.

"eu não quero que você me diga mais nada. a pior coisa em você é que você tenta parecer bom e consegue. você é um canalha que convence as pessoas. deveria escrever um livro ou uma peça de teatro. eu não vou acreditar em mais nada que vier de você."

nunca um elogio doeu tanto.

nunca mais traí ninguém.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

1:44

[gary barlow] - eu já te disse que eu quero te ver de novo? - perguntou ele, com a cabeça afundada no travesseiro. ela continuou distraída com alguma dessas bobagens que passam na tevê no domingo à noite.

- o que você falou?

- nada. agora essa frase vai ser um mistério para sempre. tudo porque você estava aí assistindo a... sei lá ao que você está assistindo.

mas não era um mistério, porque ele já tinha dito. e talvez nem precisasse.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

16:42

[gary barlow] ela: você vai escrever um post sobre isso?
eu: não. (não ia, mas você me deu a ideia.)

***

ela: você chegou aí faz muito tempo?
eu: não, cheguei agora há pouco. (há uns 20 minutos. mas não me importo.)
ela: a gente tem que pegar a fila, né? é aqui?
eu: não, acho que é lá. (estamos furando a fila do cinema, meu deus.)
ela: aqui?
eu: isso. (continuamos furando, mas menos. tudo bem, é só não olhar para trás.)

***

ela: eu sinto que você está um pouco acuado.
eu: acuado? (sim, claro.)
ela: sério, eu tenho a impressão de que eu deixo você acuado, por isso você fala tão pouco.
eu: eu sempre falo pouco. (ok, não tão pouco. mas é a reação natural de um homem tímido perto de uma mulher tão bonita.)
ela: você não tem cara de quem fala tão pouco assim.
eu: ah, eu me sinto um pouco acuado, sim. (um pouco mais que um pouco.)
ela: por quê?
eu: não sei como explicar. (preciso de cinco minutos para organizar meus pensamentos e falar algo coerente.)

***

eu: eu fico acuado porque eu quero te ver de novo. eu sei que não é bonito dizer isso, mas faz tempo que eu não saio com uma garota que eu tenha vontade mesmo de rever. (desaprendi a ter medo. é isso.)
ela: você é daqueles que falam que vão ligar para as meninas e não ligam, é?
eu: não, não. (mesmo quando não tenho vontade de ver de novo, eu ligo. o que não importa, porque não é o caso.)
ela: mas você não tem que se sentir acuado por causa disso. a gente pode se ver tal dia, ué.
eu: eu sei. (eu sei?)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

5:20

[gary barlow] oi, moça.

acabei de chegar em casa. obrigado por ter ligado para me convidar. adorei a noite, a música e a companhia. vamos repetir um dia desses? beijos.

ou melhor, beijos não. antes queria te dizer outra coisa.

talvez você não tenha percebido. mas, enquanto os nossos amigos procuravam seus prazeres momentâneos, eu não olhei para outra garota a noite toda. desde que te encontrei na festa, só pensava em te beijar. aliás, você estava linda com aquele vestido.

sei que isso tudo pode parecer insólito. afinal, já faz tempo que somos amigos - e mais nada.

a propósito, foi por isso que hesitei naquela hora em que te segurei pela cintura e minha boca chegou a encostar na sua, enquanto eu fingia que não te escutava por causa do som alto e me apoiava no seu ombro porque estava supostamente bêbado.

se você tivesse reparado em outras ocasiões, saberia que tenho uma ótima audição e que, mesmo quando estou bêbado, sempre mantenho uma distância respeitável das pessoas ao meu redor.

fiquei grudado em você porque quis. mas, ao mesmo tempo, não tive coragem de demonstrar minhas intenções de forma mais direta. deu medo de estragar nossa amizade, apesar de eu só ter me tornado seu amigo há tantos anos porque te acho uma mulher incrível. incrível demais para ser só minha amiga e me encontrar no bar uma ou duas vezes por mês para falarmos de banalidades.

é verdade que em algum momento acabei sublimando essa vontade e nos tornamos verdadeiramente amigos, a ponto de nos divertirmos juntos e trocarmos confidências. mas basta uma noite como esta para eu perceber que a sublimação não passava de autoengano, e que talvez as confidências fossem uma forma de tentar ganhar sua confiança, me aproximar de você e preparar o bote que eu não tenho coragem de dar.

patético, eu sei.

por isso resolvi te escrever. porque, mesmo que a sua vontade de me beijar seja talvez inexistente e com certeza menor do que a minha vontade de beijá-la, sinto que você merece saber a verdade.

eu não resisto a aproveitar a ocasião para dizer que você deveria me dar uma chance. nossos signos combinam e eu sei ser uma ótima companhia, principalmente quando supero a barreira do primeiro contato e deixo de ser um poço de insegurança e introspecção. sei que você está sozinha há um tempo. acho, sinceramente, que sou capaz de te fazer gostar de mim.

mas não é para isso que estou escrevendo esta mensagem. a decisão, afinal, é sua. não posso te forçar a me escolher, assim como não fui forçado quando te escolhi. se é que tive escolha.

estou escrevendo porque somos amigos, ao menos até segunda ordem. em uma relação como essa, a honestidade deve superar a timidez e o medo de rejeição. mesmo que você não queira nada comigo e ache tudo isso um enorme delírio de alguém que consumiu uma quantidade de álcool muito superior à recomendável, você tem o direito de saber o que se passa em minha cabeça. e pode me ajudar superar isso da melhor maneira possível, sem que percamos a cumplicidade que construímos com o tempo.

do contrário, a frustração enorme que sinto ao final de noites como esta pode acabar com nossa amizade. não sei se quero sentir isso de novo, e não sei se consigo passar outras noites ao seu lado enquanto estiver engasgado com essa sensação e todo este discurso sentimentalista, ainda que sincero. se não soubermos lidar com isso como adultos, sinto que vou me afastar de você, ainda que inconscientemente. por saber que nossos encontros terminam assim: com um idiota suspirando diante do teclado.

aliás, sinto que já estamos nos afastando.

agora sim, beijos.

gary barlow

nota de rodapé: mensagem não enviada mais de uma vez, para mais de uma garota.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

entre o final de 2006 e o início de 2007

[tippi hedren] "... essa última conversa deixou uma sensação ruim. incapacidade de compreender por que estávamos nos massacrando daquele jeito. como é possível duas pessoas serem tão duras uma com a outra, sendo que se gostam?

foi mais uma discussão longuíssima, cheia de você isso, você aquilo – dos dois lados – e nada prazeroso ou uma nova ideia.

o mais estranho é que há tempos a gente se prendeu nessa teia de desprazeres e mesmices. achávamos que o melhor caminho era a conversa. eu até acho que seja. mas com a gente não funcionou. falávamos demais e não tínhamos tempo de viver. vivemos muito pouco ou poucas coisas boas.

mesmo quando tudo estava bem, eu não vivi o que poderia ter vivido. medo de falar alguma bobagem, medo de cobrar algo, medo de fazer algo "errado" e estragar tudo. o medo. sempre ele."

nota de rodapé: e-mail escrito por mim. nunca chegou ao destinatário. aliás, ele não recebeu 90% dos e-mails que eu escrevi. ele destruiu meu coração.

sábado, 22 de janeiro de 2011

8:20

[gary barlow] você tenta de novo. sustenta o olhar por muitos segundos além do aceitável em busca de um contato. ela sorri, mas para o celular. e olha para ele como nunca olhou para você.

você disfarça encarando as paredes, como se algo ali te interessasse. toma a terceira dose do pior uísque da casa, mas não tem coragem de dizer nada. tarde demais para aproveitar a noite. cedo o bastante para rir de si.

e é nessa hora que você desiste. e não sabe até quando. mas sabe por quê.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

15:51

[gary barlow] ela me manda um e-mail. quer discutir um assunto do trabalho.
ela me chama para tomar um café. descemos.
ela pede ajuda para desenvolver uma ideia.
ela divide encanações da vida. profissional. depois, pessoal.
ela dá risada. primeiro de mim. depois dela. depois da vida.
ela fala do ex.
ela fala de amores passados e futuros.
ela me chama para ir com os amigos ao bar.
ela se apressa.
ela agradece.

***

e eu? ora, eu continuo sendo um idiota.

sábado, 15 de janeiro de 2011

7:10

[gary barlow] há alguns dias eu disse que não corria o risco de ser feliz. era verdade. mas bastam alguns minutos de jogo do contente para perceber que há, afinal, um lado bom nisso. quem não corre o risco de ser feliz não se decepciona. nunca. e com ninguém.

mas chega de drama por enquanto. para não aborrecer o leitor, vou direto à parte boa. é curta. depois disso, cada um decide se quer ou não acompanhar o resto de meus lamentos. já aviso logo: passei a noite em claro e estou levemente alcoolizado. nesse estado, posso fazer pouco além de me envergonhar publicamente. e há vexames que não podem ser mitigados nem mesmo pelo anonimato.

a parte boa é que dancei a noite inteira.

pronto. se você quiser ler o restante, é porque o meu chororô te interessa. não entendo, mas respeito. peço apenas que releve o pedantismo e o tom de desabafo.

como disse, quem não corre o risco de ser feliz nunca se decepciona. atravessei a noite de sexta sem uma hora de sono. agora, não tenho qualquer motivo para dormir bem. embora a tentação de transmitir a culpa exista, não há álcool que me faça esquecer que ela só cabe a mim.

por melhor que seja a companhia, não há a menor chance de sucesso em um flerte se falta a coragem para arriscar. não há risco de final feliz sem risco de rejeição. e, ao que parece, também não há álcool que me faça esquecer esse último. ou esquecer que sou um tremendo medroso. e que, por mais que eu possa ter algumas qualidades, nunca vou deixar de invejar quem não tem esse defeito. como invejei hoje.

talvez o medo não seja o bastante para explicar tudo. como uma amiga gosta de me relembrar, há também uma dose generosa de exagero. assumo. sou assim com assuntos sentimentais. de propósito. pior ainda: não posso fazer nada.

atribuir aos sentimentos de outra pessoa um valor desproporcionalmente grande é uma decisão completamente racional. mas é também irreversível. poucos vícios são tão poderosos quanto o de criar histórias de amor a partir do nada.

para quem sai à noite em busca de diversão, um beijo de um desconhecido pode trazer um prazer momentâneo. talvez um pouco mais - mas não muito, e certamente não muitas vezes. para quem sai à noite para tentar concretizar uma história de amor, um simples beijo pode ser uma experiência inesquecível. lembro-me de todos. uma vez que se experimenta o milagre de tornar realidade um beijo antecipado tantas vezes na imaginação, não há mais sentido em dar espaço para beijos que ainda não foram imaginados. melhor apostar alto, mesmo se for para perder.

quando se exagera, porém, o medo de rejeição torna-se tão grande que se perde tudo antes de começar. como hoje. como era esperado.

por isso, nesta manhã de sábado, há várias palavras para descrever o meu estado. mas decepção não é uma delas. resignação me parece mais adequada. engraçado. será que mesmo depois de uma noite de festa, com algumas garrafas de cerveja na cabeça, a formação judaico-cristã ainda conseguiria me agarrar pelos calcanhares?

por um momento acredito que sim. mas então lembro que há uma palavra melhor. no carro, enquanto levava ela e seus amigos de volta para casa, só conseguia pensar no refrão da última música que ouvi naquela noite. nunca a tinha ouvido em uma pista de dança. deve ser coincidência, claro.




see you later, queridos. bom fim de semana para vocês.