[gary barlow] quando eu decidi participar deste blog, o maior motivo foi minha vontade de dividir esta história. falei dela há alguns dias e tenho ensaiado o texto desde então. vai ficar enorme e um pouco melodramático, mas é assim que ele deve ser. a quem tiver disposição de ler, faço duas promessas. tudo o que está escrito abaixo é verdade, e nada te fará sentir empatia ou compaixão.
já escrevi aqui sobre minha segunda traição, com a garota da faculdade. foi o início de um relacionamento doloroso e inesquecível. mas não contei que essa era apenas parte de uma história maior, que começou de um jeito parecido e mudou para sempre minha maneira de ver o mundo e os relacionamentos. para sempre e para a pior.
ela começa com um típico namoro colegial. depois de alguns beijos sem muito significado, acabei me tornando metade de um desses casais ingênuos e felizes. daqueles que percebem o ceticismo de todos ao redor, mas que nem por isso deixam de fazer planos para os 40 ou 50 anos seguintes, ou de trocar juramentos maravilhosos e quase impossíveis de cumprir.
"eu sempre, sempre vou te dizer a verdade."
falhei em todos os outros. mas esse, sem dúvida, foi o pior deles.
o dia em que descobri que eu não era bom foi uma segunda-feira, no começo de 2003. eu tinha entrado há pouco tempo na faculdade, que costuma ser a sentença de morte dos namoros do colégio. eu e ela estávamos brigando constantemente por algum desses motivos ridículos que levam adolescentes de 18 anos a se desentender, se é que eles precisam de motivos.
em meio a essas brigas, conheci a garota do interior. ela não fazia meu tipo em absolutamente nenhum sentido, o que não impediu que começássemos a conversar na sala de aula e a levar nossas conversas para o intervalo. até essa segunda-feira, em que estávamos sentados em uma das escadas do campus e ela perguntou se eu tinha namorada.
respondi que não e ela me roubou um beijo.
eu poderia até dizer que aquele beijo foi culpa dela, apesar de eu ter mentido que era solteiro. mas os beijos seguintes foram culpa minha. foi culpa minha quando liguei para minha namorada e disse que ia ficar na faculdade até mais tarde para estudar. quando levei a garota para o meu carro. quando me despedi dela falando que nos veríamos no dia seguinte.
à noite, quando encontrei minha namorada, achei que ela perceberia que havia algo de errado. ela não desconfiou de nada. do cumprimento à despedida, aquele foi mais um encontro normal daquele casalzinho apaixonado do colégio, que brigava por bobagens e depois voltava às boas. exceto pelo fato de que eu não era uma pessoa boa.
ao menos nos círculos que eu frequento, todos têm a convicção de que são pessoas boas, assim como seus pais, irmãos e amigos. um elogio comum a alguém de fora desse pequeno grupo é dizer que se trata de "uma pessoa boa". uma de nós. eu também pensava assim até aquele dia. foi aí que descobri que eu, um menino que beijava os pais antes de dormir, tirava notas altas e tinha um namoro supostamente perfeito, poderia ser um tremendo filho da puta.
e o que mais me surpreende, olhando para o passado, não é a minha falta de coragem para abrir o jogo com a minha namorada, ou a completa irracionalidade da minha conduta - afinal, eu havia traído na primeira oportunidade que tivera, com uma garota por quem eu tinha interesses no mínimo superficiais. o que mais me surpreende é que eu não tinha a menor intenção de parar.
passei algumas semanas com a garota do interior, até que ela começou a se apaixonar e eu tive de dizer que, sim, eu era comprometido. ela ficou justificadamente transtornada. chegou a pegar o número de telefone da minha namorada no meu celular e ligar para ela, mas não teve coragem de dizer nada.
inventei uma história. disse que a garota era louca e tinha pego meu celular emprestado. minha namorada acreditou. cortei o contato com a garota do interior e só voltei a vê-la há alguns meses. ela me confessou que ainda gostava de mim. eu disse que não merecia esse sentimento e que ela deveria procurar alguém melhor. ela insistiu; disse que eu estava me diminuindo. eu disse que sabia que eu estava certo. não a vi mais depois disso.
***
depois desse susto, eu e minha namorada voltamos à instabilidade tradicional. continuei a omitir tudo o que havia acontecido com a garota do interior. vivemos um ano de quase felicidade, até eu conhecer aquela outra garota.
na primeira vez em que beijei a garota da faculdade, eu e minha namorada estávamos brigados. de traidor, eu passei a ser amante. durante a semana, eu e ela levávamos uma vida de casal, a ponto de frequentarmos as casas um do outro e sairmos para almoçar com amigos. os fins de semana ela passava com o namorado, em outra cidade. ela dizia que iria terminar com ele, mas sempre voltava na segunda-feira com uma desculpa para não tê-lo feito. eu merecia.
já disse que a história terminou depois de três meses, com duas traições, quatro corações destruídos, um trancamento definitivo e uma prescrição de fluoxetina. mas não disse como terminou.
quando triângulo amoroso havia completado dois meses, minha namorada voltar a me procurar. marcamos um encontro. ela me abraçou e chorou, dizendo que sentia minha falta. eu já não sentia quase nada por ela, mas não tive coragem de dizer que não queria mais e estava com outra garota. me sentia em dívida com ela por tudo o que havia feito. nós reatamos sem que eu dissesse nada sobre a garota do interior, ou sobre a garota da faculdade. não tive coragem de cumprir minha promessa.
a garota da faculdade ficou abalada com a notícia. nunca mais foi a mesma comigo e parou de prometer que terminaria o namoro. ainda assim, mantivemos nosso relacionamento por mais um mês, sem que minha namorada ou o namorado dela soubessem de nada. continuamos nessa felicidade precária até as férias de julho, quando ela foi passar um mês na cidade dela e eu fiquei em são paulo com minha namorada. nenhum dos dois se sentiu à vontade para ligar. quando voltamos a nos ver, o interesse dela por mim havia morrido. ela começou a fazer outro curso e não nos vimos mais na faculdade.
eu, que já detestava as aulas, agora tinha um motivo a mais para não querer olhar para o prédio, as pessoas e as paredes. tudo me lembrava dela. passei a tirar notas baixas e faltar às aulas. tranquei minha matrícula na faculdade. conheci meu primeiro psiquiatra. o segundo. o terceiro. tomei os remédios mais populares para depressão: esses que os médicos se acostumaram a receitar sem perguntar qualquer coisa. não fizeram efeito porque meu problema era moral. mas eu não admitiria isso nunca - nem mesmo em uma consulta psiquiátrica.
minha namorada me via desabar, mas não podia saber o motivo. tive de inventar desculpas. disse que era por problemas familiares, por insatisfação com o curso, por razões químicas (como se eu soubesse algo do assunto). cheguei a dizer que a culpa era dela. continuamos nesse pesadelo por mais três anos, até que aquele grande amor adolescente se transformasse em nada. terminamos o namoro quando ela decidiu não atender mais aos meus telefonemas depois de uma de nossas brigas cotidianas.
pouco depois disso, encontrei a garota da faculdade por acaso num restaurante. estava sentado com dois amigos quando ela passou pela minha mesa, em direção à porta. num impulso, levantei e fui atrás dela. ela continuou andando, sem tirar os fones de ouvido. consegui alcançá-la e andei ao lado dela por três quarteirões. disse que precisávamos conversar e que eu ainda pensava nela todos os dias (era verdade). enquanto dizia isso, segurei a mão dela. ela disse que precisava ir embora e não queria ouvir nada. continuei segurando sua mão; ela se afastou e atravessou a rua. não fui atrás. voltei ao restaurante algumas vezes, mas nunca nos encontramos de novo.
***
a história merecia um epílogo amargo.
dois anos depois do fim do namoro, eu e minha ex-namorada nos encontramos na internet e ela me mandou uma mensagem. voltamos a conversar e reencontramos a sintonia dos primeiros anos. depois de duas semanas de conversas virtuais, ela me convidou para tomarmos um café. eu vivia os últimos meses de um relacionamento duro e passional, mas mesmo assim aceitei o convite.
nos encontramos em uma padaria de que gostávamos e conversamos por duas horas. ela me falou da vida, dos trabalhos, das viagens. e deu de presente uma medalha como esta, que ela tinha comprado no vaticano. disse que sabia que eu estava comprometido, mas que ainda gostava de mim e queria tentar de novo.
eu não estava disposto a tentar. em dois anos se aprende alguma coisa, e eu sabia que não conseguiria guardar todas as mentiras do passado e manter a nossa sanidade, ou a mais remota chance de sermos felizes. mas ao mesmo tempo não achava justo dispensá-la e deixar que ela pensasse que foi rejeitada por uma pessoa boa, digna do amor que ela sentia.
sem pensar muito, decidi cumprir a promessa feita sete anos antes. contei toda a verdade.
há um limite para as descrições, e este é o meu limite. mesmo se eu abusasse de metáforas e adjetivos, não saberia descrever a expressão de alguém que acaba de descobrir que foi enganado durante cinco anos. só posso dizer que eu vi esse rosto. é uma cena que me assombra de tempos em tempos, embora eu tenha aprendido a pensar no passado o mínimo possível.
segurei a mão dela assim que ela começou a chorar e contei a história até o final. pedi uma água. ela tomou e quis ir embora. caminhamos juntos, sem olhar um para o outro. em frente ao carro dela, perguntei se ela queria a medalha de volta. ela disse que tinha comprado pensando em mim e queria que ela ficasse comigo. está na minha carteira até hoje. é a prova de que minha história é verdadeira. de que ser uma pessoa boa não é uma condição nata, mas uma decisão tomada ao longo da vida.
quando nos olhamos pela última vez, ela ainda chorava muito. eu a abracei e disse a única palavra que cabia naquele momento. "desculpa." ela me abraçou mais forte, não respondeu e se despediu. acompanhei o carro dela com os olhos até o fim da rua, como fazia nos primeiros anos de namoro. eu não a veria mais depois disso.
ainda naquela tarde, por e-mail, ela me diria tudo o que eu merecia ouvir e ela não teve forças para dizer em nosso encontro. eu respondi com um novo pedido de desculpas. ela encerrou a conversa e pediu que eu nunca mais a procurasse.
"eu não quero que você me diga mais nada. a pior coisa em você é que você tenta parecer bom e consegue. você é um canalha que convence as pessoas. deveria escrever um livro ou uma peça de teatro. eu não vou acreditar em mais nada que vier de você."
nunca um elogio doeu tanto.
nunca mais traí ninguém.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
domingo, 6 de fevereiro de 2011
19:30
[gary barlow] no post anterior, aquele sobre a mensagem que insisto em não enviar, acabei me esquecendo de um detalhe.
pensando melhor, talvez detalhe não seja o termo ideal. na falta de outro, fiquemos com esse. mas devo tentar uma definição mais clara. há detalhes e detalhes. alguns são aspectos quase imperceptíveis da vida e só chamam nossa atenção quando decidimos reparar neles. e há detalhes que podem provocar acidentes aéreos, mudanças climáticas de proporções planetárias ou a infelicidade eterna.
o meu detalhe é do segundo tipo.
o detalhe é que eu esqueci de dizer que, embora tenha deixado de mandar essa mensagem algumas vezes, para amigas que teimo em não esquecer e cujos nomes poderia recitar agora, houve uma vez em que mandei a mensagem. ou quase isso.
era 2004. eu ainda acreditava que era uma boa ideia seguir na faculdade de letras, que eu começava a detestar. quanto mais detestava a faculdade, mais gostava da garota da carteira ao lado. era a garota da carteira ao lado porque invariavelmente, por iniciativa minha ou dela, acabávamos decidindo que ficar a poucos centímetros de distância um do outro era uma boa maneira de enfrentar o dia. ela também detestava a faculdade e demonstrava gostar da minha companhia.
mas vocês não estariam lendo esta história agora se ela tivesse final feliz. a garota da carteira ao lado namorava um rapaz de outra cidade. eu tinha um relacionamento difícil, daqueles em que a insatisfação é tão grande quanto o medo de terminar. o que não impedia que nos separássemos brevemente, para logo depois reatarmos com a promessa de que tudo seria diferente, mesmo que nenhum de nós dois acreditasse nas palavras que dizia ou ouvia.
um dia depois de uma dessas separações, a garota da carteira ao lado sentou-se comigo novamente. e eu decidi que precisava fazer algo.
nós havíamos criado o hábito de trocar bilhetes em um caderno. reminiscências do colegial. até o dia em que peguei o caderno e decidi escrever um pouco mais do que estava acostumado. era uma manhã de terça-feira, aula de Literatura Brasileira I. não lembro de uma palavra que foi dita pelo professor naquele dia. mas lembro de tudo o que escrevemos, ainda que tenha destruído o caderno tempos depois, junto com ingressos de cinema, bilhetes e fotos que eu não queria ver nunca mais.
"senti que você estava meio chateado na sexta, gary. aconteceu alguma coisa? quer conversar?"
"não sei se devia falar disso com você."
"por que não? você sabe pode contar comigo sempre. qual é o problema?"
"o problema é que eu queria te beijar agora. do mesmo jeito que quis te beijar ontem. ou no fim de semana, quando não nos vimos. ou na sexta-feira, quando você percebeu que eu estava chateado.
sei que você tem namorado e deve me ver só como amigo. entendo se você não quiser nada comigo, ou até se ficar irritada por eu te escrever essas coisas. mas não sei lidar com isso sozinho. não consigo mais esconder e acho que você merece saber disso. nós somos amigos, e eu seria um péssimo amigo se continuasse a conversar com você todos os dias e escondesse a verdade.
só não queria que isso afastasse a gente. temos uma amizade muito bonita e seria muito triste te ver todos os dias na faculdade e não poder estar perto de você, nem conversar como sempre conversamos. se você não sentir o mesmo que eu sinto, posso tentar aprender a ser só seu amigo."
"tá..."
"fala."
"me explica uma coisa. você só queria me dar um beijo, é isso?"
"eu tenho vontade de te beijar todos os dias."
"eu sinto o mesmo que você."
***
a história terminou depois de três meses. com duas traições, quatro corações destruídos, um trancamento definitivo, uma prescrição de fluoxetina e algumas das minhas recordações mais dolorosas e difíceis de esquecer. também houve momentos ótimos. mas nada que justificasse acidentes aéreos, mudanças climáticas de proporções planetárias ou a infelicidade eterna.
estragar a amizade é o de menos. tenho medo é de estragar a vida.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
21:20
[gary barlow] era tarde demais para aproveitar aquela noite. mas havia a noite seguinte.
lembro que há alguns dias eu disse que sair e beijar desconhecidas era, no máximo, uma fonte de prazer momentâneo. ainda concordo. mas, em algumas circunstâncias, todos nós precisamos de uma dose de prazer momentâneo. mesmo os mais sonhadores. and by that i mean myself.
devo dizer que há meses não aproveitava tanto uma noite. quando a música, o ambiente e as companhias conspiram para o seu bem-estar, não se divertir é uma ofensa ao universo. e, se ainda assim eu estivesse relutante, a bebida existe para isso. para garantir que o universo não será ofendido.
dois dias depois, ainda sinto os efeitos colaterais da noite. um dia inteiro movido a água, café e tylenol. mas valeu a pena. mesmo que só para me sentir vivo. mesmo que só para poder contar histórias - algumas delas constrangedoras. mesmo que só para saber que sou capaz de flertar sem o peso das minhas expectativas. mesmo que só pelo prazer momentâneo que eu havia mencionado.
depois, como acontece com os prazeres momentâneos, percebi que daquela noite me sobrou pouco.
uma dor de cabeça insistente. um número de telefone para o qual eu dificilmente vou ligar. e a certeza de que posso me divertir muito. desde que deixe de ser quem eu sou.
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