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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

15:18

não é nada bom ficar encontrando as pessoas da faculdade quando você deveria ter uma vida adulta, um corpo em forma, saber se vestir, ter um carro e assuntos palpitantes, mas você não tem. e elas sim.

nesses momentos, eu vejo que me importo mais do que deveria com o que eu deveria ser ou ter e fico estabelecendo comparações terríveis pra minha autoestima.

elas, essas garotas que eu sempre encontro, trabalham em uma revista feminina da mesma editora que responde pela minha revista.

não sei se elas precisam ser ou se gostam de ser ou se apenas são, mas o fato é que elas se parecem muito com as mulheres que aparecem na revista delas. não as modelos. é como se elas fossem as leitoras que elas imaginam que existam. as chamadas mulheres-alfa, a quem a revista se dirige. mulheres que têm uma carreira, um marido, filhos e ainda são lindas, malham, prestam atenção às tendências e, por deus, têm dinheiro pra bancar essa porra toda.

elas são magras. e eu com a minha camiseta roxa, minha saiona preta. praticamente morro de vergonha dos meus braços gordinhos, da minha barriga, das minhas bochechas de quico. e ainda falo as coisas erradas!

- olha só, tá toda a faculdade praticamente na revista x.
- é, que legal.
- só falta você, tippi.
- tem vaga?
- agora não...
- olha, eu gosto muito da sua revista (de fato, eu gosto quando tô no mood mulherzinha. também tem umas reportagens boas, às vezes). mas acho que ainda preciso me testar mais na revista y, pois nem sempre escrevo e eu quero escrever mais blá blá blá (o velho papo de sempre).
- ah tá, eu só tava falando, mesmo.

tipo, não era pra eu levar a sério. não era uma proposta de trabalho, lógico. tudo culpa dessa dificuldade interpretativa que eu tenho às vezes. e aí o assunto morreu e eu fiquei só ouvindo a conversa delas, que era sobre como a tpm se tornou fútil.

e eu todo tempo pensando que queria comer mais alguma coisa, mas fiquei com vergonha de levantar na frente delas. praticamente podia ouvir seus pensamentos, todos mais ou menos assim: "- nossa, a tippi engordou, né? não sei como tem mulher que não se cuida. tanta academia por aí etc."

é, eu sofro com essas merdas.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

20:17

quando comecei a ler o texto da marcia tiburi, achei que se tratasse de mais um levante contra a cultura de massa, assunto da maioria das aulas da faculdade de jornalismo, além da semiótica e dos causos dos professores que confundiam a disciplina que lecionavam com realizações próprias.

ainda assim, decidi ler até o final. no quinto parágrafo, comecei a sentir o êxtase. nunca tinha pensado, por exemplo, que a performance de lady gaga traria, na apresentação estética, elementos do pós-feminismo.

ela explica bem melhor do que eu poderia:

O tema da mulher morta torna-se quase um lugar-comum na arte contemporânea, como foi no século 19. Naquele tempo, ele representava o impulso próprio do romantismo que via na mulher falecida e inválida um ideal agora retomado de modo irônico por diversas artistas contemporâneas. Lady Gaga vai, no entanto, muito além dessas artistas em termos de coragem feminista. Enquanto elas zombam das mulheres estereotipadas que morrem como Ofélias por um homem, Lady Gaga, de modo mais surpreendente e corajoso do que importantes artistas cultas, dá um passo adiante.

No vídeo de “Paparazzi” fica exposto o amor-ódio que um homem nutre por uma mulher, a invalidez à qual ela é temporariamente condenada por sua violência e, por fim, uma vingança inesperada com o assassinato desse mesmo homem. “Incitação à violência”, pensarão as mentes mais simples; “feminismo como ódio aos homens”, dirá a irreflexão sexista acomodada, quando na verdade se trata de uma irônica inversão no cerne mesmo do jogo simbólico que separa mulheres e homens. Se em “Paparazzi” o deboche beira o perverso autorizado psicanaliticamente (a mulher sai da posição deprimida ou melancólica e aprende a gozar com seu algoz, que ela transforma em vítima), em “Bad Romance”, “o vídeo mais visto de todos os tempos”, mulheres de branco – como noivas dançantes – surgem de dentro de esquifes futuristas para curar uma louca que chora querendo ter um “mau romance” com um homem.

depois, ela fala sobre a estética de telephone, ressaltando o desprezo pelo amor dos homens e a subversão da imagem da mulher-mãe, que se dedica a alimentar seu homem.

não sei se lady gaga ou alguém de sua equipe pensou nesses conceitos para elaborar os vídeos. e ninguém vai se importar com essas coisas também, a não ser os doutores. e eu, pelo visto.

na íntegra.