pensando melhor, talvez detalhe não seja o termo ideal. na falta de outro, fiquemos com esse. mas devo tentar uma definição mais clara. há detalhes e detalhes. alguns são aspectos quase imperceptíveis da vida e só chamam nossa atenção quando decidimos reparar neles. e há detalhes que podem provocar acidentes aéreos, mudanças climáticas de proporções planetárias ou a infelicidade eterna.
o meu detalhe é do segundo tipo.
o detalhe é que eu esqueci de dizer que, embora tenha deixado de mandar essa mensagem algumas vezes, para amigas que teimo em não esquecer e cujos nomes poderia recitar agora, houve uma vez em que mandei a mensagem. ou quase isso.
era 2004. eu ainda acreditava que era uma boa ideia seguir na faculdade de letras, que eu começava a detestar. quanto mais detestava a faculdade, mais gostava da garota da carteira ao lado. era a garota da carteira ao lado porque invariavelmente, por iniciativa minha ou dela, acabávamos decidindo que ficar a poucos centímetros de distância um do outro era uma boa maneira de enfrentar o dia. ela também detestava a faculdade e demonstrava gostar da minha companhia.
mas vocês não estariam lendo esta história agora se ela tivesse final feliz. a garota da carteira ao lado namorava um rapaz de outra cidade. eu tinha um relacionamento difícil, daqueles em que a insatisfação é tão grande quanto o medo de terminar. o que não impedia que nos separássemos brevemente, para logo depois reatarmos com a promessa de que tudo seria diferente, mesmo que nenhum de nós dois acreditasse nas palavras que dizia ou ouvia.
um dia depois de uma dessas separações, a garota da carteira ao lado sentou-se comigo novamente. e eu decidi que precisava fazer algo.
nós havíamos criado o hábito de trocar bilhetes em um caderno. reminiscências do colegial. até o dia em que peguei o caderno e decidi escrever um pouco mais do que estava acostumado. era uma manhã de terça-feira, aula de Literatura Brasileira I. não lembro de uma palavra que foi dita pelo professor naquele dia. mas lembro de tudo o que escrevemos, ainda que tenha destruído o caderno tempos depois, junto com ingressos de cinema, bilhetes e fotos que eu não queria ver nunca mais.
"senti que você estava meio chateado na sexta, gary. aconteceu alguma coisa? quer conversar?"
"não sei se devia falar disso com você."
"por que não? você sabe pode contar comigo sempre. qual é o problema?"
"o problema é que eu queria te beijar agora. do mesmo jeito que quis te beijar ontem. ou no fim de semana, quando não nos vimos. ou na sexta-feira, quando você percebeu que eu estava chateado.
sei que você tem namorado e deve me ver só como amigo. entendo se você não quiser nada comigo, ou até se ficar irritada por eu te escrever essas coisas. mas não sei lidar com isso sozinho. não consigo mais esconder e acho que você merece saber disso. nós somos amigos, e eu seria um péssimo amigo se continuasse a conversar com você todos os dias e escondesse a verdade.
só não queria que isso afastasse a gente. temos uma amizade muito bonita e seria muito triste te ver todos os dias na faculdade e não poder estar perto de você, nem conversar como sempre conversamos. se você não sentir o mesmo que eu sinto, posso tentar aprender a ser só seu amigo."
"tá..."
"fala."
"me explica uma coisa. você só queria me dar um beijo, é isso?"
"eu tenho vontade de te beijar todos os dias."
"eu sinto o mesmo que você."
***
a história terminou depois de três meses. com duas traições, quatro corações destruídos, um trancamento definitivo, uma prescrição de fluoxetina e algumas das minhas recordações mais dolorosas e difíceis de esquecer. também houve momentos ótimos. mas nada que justificasse acidentes aéreos, mudanças climáticas de proporções planetárias ou a infelicidade eterna.
estragar a amizade é o de menos. tenho medo é de estragar a vida.